sexta-feira, 23 de junho de 2017

O Ouvinte de si mesmo

Infelizmente esse texto não se refere ao exercício autoconsciencial de se analisar através da fala, ele se trata daqueles que filtram o que o outro diz apenas para aquilo que lhes causam identificação. Tentarei ser mais clara: você já reparou que em conversas simples, até memso aquelas isentas de grande teor afetivo ou relevância, você emite um discurso e a resposta é quase que unânime sobre o ponto de vista alheio? Eu não sei bem como isso começou mas sinto falta de conversar sem precisar que a minha fala seja distorcida para a necessidade do outro falar sobre si, e o pior, falar ilusões sobre si. Porque ele fala aquilo que ele acredita ser ele e infelizmente ele só está dizendo sobre como ele gostaria que enxergássemos a sua história. As pessoas usam as conversas para a autopromoção. Talvez falando em voz alta para mais alguém, ele próprio possa acreditar nas mentiras que conta para si. Não sei.

O ouvir verdadeiro tem que estar disponível para o outro. O outro é o iluminado e a minha escuta o holofote que emite essa luz. Pense então como se a cada vez que essa pessoa falasse, o holofote desviasse a luz dela e direcionasse para si mesmo. Qual o sentido? Para dialogar você não precisa roubar a fala alheia. Quando estou falando de mim ou de qualquer assunto banal, não necessariamente estou querendo ouvir sua opinião sobre isso, como você agiria em tal situação, sua crítica sociopoliticaeconomicaexistencial que é melhor que a de especialistas no assunto, como você se vê mais promissor diante dos problemas que são meus. É difícil conversar nos tempos de hoje. Você fala mas não é ouvido. O outro só ouve o que diz respeito a ele, funciona por identificação e a identificação é uma busca por si mesmo. Você despretensiosamente comenta "Meus pais agiram assim assado em minha infância" e o outro responde "os meus não, os meus foram ótimos, nunca tive que passar por isso". Ou até em questões negativas: "eu tive uma doença muito séria", "eu já quase morri, tive coma, vi a luz  e ressuscitei". Pois é, os diálogos hoje se tratam de competições narcísicas onde não importa o que o outro diz, desde que você sobressaia de alguma maneira.. É triste. Preciso ser ouvida, sinto falta. Estou cansada de entrar em disputas para poder expressar o que quero, mesmo constatando que não estou sendo ouvida.  Afinal, o que você ouve nem sempre diz respeito a você. Sei que alguns podem estar em choque com essa afirmativa, mas é a verdade. 

Conversar  não é se apropriar da fala do outro para em fração de segundos encontrar um jeito de inseri-la na sua experiência e pintá-la de uma forma que aparente ser mais atrativa. No final, quem começou a conversa já parou de falar e o outro ganhou a cena. O movimento tem sido esse, escutar de uma forma que possa ser utilizada para chamar a atenção para si e ser ouvido. As pessoas não querem ouvir, só querem falar.
O ser humano está incapaz de emitir uma resposta que não seja a do reflexo do seu narciso. Pena que ele escolhe ver só o que lhe convém nessa imagem, a sombra, a parte que ele negligencia em si, ele deixa para que os outros se virem para conviver. 
Concluo que a escuta do ego é incapaz de escutar o outro. Enquanto o ego finge escutar, é o narciso quem fala. O alerta é para não se afogar na própria fala, como Narciso se afogou na própria imagem. Deem conta de si mesmos pra não terem que usar os outros como alvo de projeções. Eu só quero conversar em paz. Sem competições, por favor.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

A obra - uma história familiar



Capítulo 01

A obra começa amanhã.

Capítulo 02

Nunca na minha vida tive uma reforma em casa. Admito que não sei bem o que esperar. 

Capítulo 03


Sair de um apartamento pequeno e vir para uma casa maior e com quintal pareceu uma ideia bastante razoável, sobretudo com o nascimento de Cecília.


Capítulo 04


Não para Silvana. Ela adorava o apartamento com cheiro de novo e varanda gourmert. Foi um tanto trabalhoso convencê-la a se mudar. Mais trabalhoso ainda foi convencê-la a entrar em obras.

Capítulo 05


Tive a perspicaz ideia de sair de férias para acompanhar mais de perto o inicio dos trabalhos.

Capítulo 06

Cecília está eufórica. Percebeu um clima diferente na casa. Às oito já estava enfiada em seu macacão de bolinhas. Combinamos de dormir cedo para acordar cedo, a tempo de receber o Armando.

Capítulo 07

Sim, o nome do pedreiro é Armando. Nada mais propício, não há como negar.

Capítulo 08

Desperto com o som da campainha disparada. Olho para o rádio-relógio no criado-mudo ao lado e vejo que são seis e trinta e sete. É meu primeiro dia de férias e eu estou acordando às seis e trinta e sete por Armando, nosso pedreiro madrugador. 

Capítulo 09

Saio do quarto para abrir o portão e sou atropelado por um pijama de bolinhas que quer chegar antes de mim.

Capítulo 10

Ouço Silvana me xingando do quarto. Saí e deixei a porta aberta.

Capítulo 11

Armando vem acompanhado. Um rapaz de uns 18 anos que entra olhando pra baixo, sem responder ao meu bom dia. Armando diz que seu nome é Michael, como o do cantor. Cecília os observa desconfiada.

Capítulo 12

Vão direto ao quintal dos fundos. É lá que começarão. Ofereço café. Eles não aceitam. Eu nem percebo, mas eles já estão com monstruosas máquinas nas mãos. Um brilho assustador nos olhos. Acho melhor me afastar. Puxo Cecília e entro pra cozinha. Silvana acorda. Me xinga mas eu não pude entender o motivo. As máquinas foram ligadas.

Capítulo 13

A casa toda treme. 

Capítulo 14

Não consigo chegar nem perto do quintal. O barulho é insuportável. Da sala consigo ver que o quintal vai se transformando num mar de pedras. Meia hora foi o bastante para o cenário de guerra se instaurar lá fora. Silvana me xinga. Esqueci de recolher as bromélias do quintal. Cecília chora assustada com o barulho. Meia hora e a obra já perdeu a graça pra ela. 

Capitulo 15

Não me lembro se contamos à Cecilia que a obra durará alguns meses.

Capítulo 16


Chego a conclusão de que a ideia de fazer uma reforma na casa, com a gente dentro, não é tão boa quanto parecia.


Capítulo 17


A ideia foi minha.

Capitulo 18

Silvana leva Cecília para a casa da avó. Diz que não volta pra almoçar. Vai direto ao trabalho. Agora só estou eu e os pedreiros.

Capítulo 19

O barulho me desnorteia. Não consigo me concentrar em nada. Meu plano de ler Ulisses nessas férias foi interrompido no meio do segundo parágrafo. Quando já ia me acostumando com a britadeira, sou interrompido pela campainha.



Capitulo 20

É o vizinho. Merda. Esqueci de avisar os vizinhos. Solicito aos berros e na base da mímica para que o Armando e o menino que não fala e cujo nome já não lembro - algo como John ou Paul - parem com a britadeira. 

Capítulo 21

Chego no portão me desculpando. Ele diz que não há de quê, que sabe como são obras, que não veio ali para reclamar. Veio, pelo contrário, para me propor algo. Fico curioso.

Capítulo 22

- Já que você está em obras no quintal, que tal aproveitar para refazermos o muro entre tua casa e a minha? Já reparou no tamanho das rachaduras? Dividimos os gastos, é claro.

Capítulo 23

Fingi que há muito reparara nas rachaduras. Faltou-me a coragem para admitir que não reparo nos problemas estruturais de minha própria residência. Concordei com o acordo. Meu lema de vida sempre foi o de manter um bom relacionamento com os vizinhos.

Capítulo 24

Armando me informou que o prazo para o término da obra sofreria um acréscimo de uma semana, um pouco mais, um pouco menos, com a construção do novo muro.

Capítulo 25

No fim da tarde os pedreiros já tinham terminado de quebrar todo o piso e os rebocos das paredes. Adeus, britadeiras. Só quando eles se vão, percebo que deveria ter fechado as janelas. Todos os móveis ostentam uma grossa camada de poeira.

Capítulo 26

Silvana me xinga assim que bota os pés dentro de casa. Cecília chora ao ver os brinquedos empoeirados. Deve estar me xingando por dentro. Me xingaria por fora, se já soubesse falar.

Capitulo 27

Quando Cecília enfim se acalma e vai para a cama - meticulosamente aspirada por mim - informo à Silvana sobre a construção do muro. Silvana me xinga enfurecida, que sou um frouxo que não resisto à menor pressão dos vizinhos. Que nosso muro é ótimo do jeito que está, que se não caiu em quarenta anos, não será agora que vai cair. Que Cecília não vai aguentar todo esse barulho e poeira. Imagina se pra cada cômodo da casa for acrescida uma semana ao muito que já estava combinado. Que amanhã mesmo, quando a menina acordar, vão ambas para a casa da avó, a mãe de Silvana, e só voltarão quando a obra terminar.

Capítulo 28

Eu, do alto de minha incorrigível covardia, emudeço e começo a espanar a casa. Não quero acordar Cecília com o barulho do aspirador, me recorda Silvana.

Capítulo 29

Coloco o despertador para as seis e meia. Lembro que amanhã não terá mais britadeira e durmo feliz.

Capítulo 30

Já fiquei feliz por melhores motivos.

Capítulo 31

São sete horas e ainda não chegaram. É só o segundo dia e já estão relaxando, penso.

Capítulo 32

Ouço um barulho estranho na rua e saio pra ver. Eram eles. Há meia hora que estavam lá preparando a betoneira. Sai a britadeira, chega a betoneira. Quantos avanços!

Capítulo 33

Silvana e Cecília saem cedo. Nem olham pra minha cara.

Capítulo 34

Armando me passa uma lista de materiais para comprar. Finalmente um motivo para sair de casa. Uma manhã inteira no depósito de materiais de construção.

Capítulo 35

Não entendo nada de materiais de construção.

Capítulo 36

Chego em casa com as compras. Armando esbraveja comigo, que não era Vedacit, era Vedalit. Que eu tinha que voltar na loja e fazer a troca.

Capítulo 37

Fico um pouco contrariado por Armando esbravejar comigo logo assim no segundo dia, em minha própria residência, por um erro não assim tão grave e facilmente justificável, veja bem, a letra dele não era assim nenhum primor. 

Capítulo 38

Represo, no entanto, o desejo de esbravejar de volta. Meu lema de vida sempre foi o de manter um bom relacionamento com pedreiros. Saio e efetuo a troca.

Capítulo 39

Não consigo cozinhar. O som da betoneira toma conta de toda a casa e isso me desconcentra. Peço um marmitex. 



Capítulo 40

O pedreiro-ajudante, o Brian ou algo assim, me olhou com uma cara bastante perturbadora. Baixei a cabeça assustado e um pouco preocupado.

Capítulo 41

É noite e estou sozinho. O silêncio me atordoa. Nada se move, mas posso ouvir o som baixinho da betoneira que acampou em meus ouvidos. 

Capítulo 42

Ligo pra Silvana. Digo para parar com aquilo, que temos que lidar com aquela nova situação juntos e que estou com saudades de Cecília. Ela me xinga. Diz que já não aguenta mais minha incapacidade para lidar com as coisas mais simples da vida. Diz que Cecília já dormiu e que ela não voltará atrás. Só retornará mesmo com o fim da obra e quando tudo estiver imaculadamente limpo.

Capítulo 43

Mais um dia. É apenas o terceiro e parece que já se passou um mês. São seis e quinze e a campainha me desperta antes do despertador.

Capítulo 44

Armando parece furioso com minha demora em atender. Não responde ao meu bom dia e ignora minha tentativa de desculpas. Ouço ele me xingando baixinho. Finjo que não ouvi nada.

Capítulo 45

Resolvo fazer uma cópia da chave e deixar com Armando. Isso evitará o desconforto com a campainha.

Capitulo 46

A betoneira preenche a manhã.

Capítulo 47

Mais um dia de marmitex. Dessa vez, o motoboy chega bastante atrasado e a comida um tanto fria. Requentei no microondas. Algo dentro de mim me dizia para ligar no restaurante e reclamar, mas eu preferi dar mais uma chance. Acho que serão ainda muitos dias de marmitex e o meu lema de vida sempre foi o de manter um bom relacionamento com as pessoas que fazem minha comida.

Capítulo 48

Depois de uma manhã inteira sem se dirigir a mim, Armando me chama para eu ver uma manilha que ele encontrou no corredor de meu quintal. 

Capítulo 49

Não sei o que é manilha. Fico olhando pro objeto que ele chama de manilha, fingindo que estou achando surpreendente. Ele começa a fazer conjecturas sobre o avanço da obra. De cada três substantivos que ele usa, eu desconheço dois. Concordo com tudo.

Capítulo 50

Ao retornar para dentro de casa penso ver o pedreiro-ajudante, o tal do Nick, me mostrando o dedo do meio. Julgo que estou cansado, que ando a ver coisas, e sigo meu caminho.

Capítulo 51

Parece que o problema com o encanamento no quintal é um pouco maior do que Armando pensava. A primeira fase da obra vai levar uns dois ou três dias a mais do que o imaginado.

Capítulo 52

Ligo pra Silvana. Informo a ela sobre o contratempo na obra. Ela não me xinga. Desliga o telefone na minha cara e só. Achava mais confortável quando ela me xingava.

Capítulo 53

Mais um dia. Acordo assustado com o Armando na porta do quarto. Esqueci que eu tinha deixado a chave da casa com ele. Ele achou por bem me acordar para que eu comprasse mais areia. A obra não pode parar, senhor. Saí sem tomar café.

Capítulo 54

Sigo sem saber qual é a voz de Kevin, o pedreiro-ajudante. Os olhares dele pra mim seguem cada vez mais assustadores.

Capítulo 55

Aproveito a hora do almoço dos pedreiros para pesquisar na internet. Encontro com alguma facilidade um excelente glossário da construção civil. Manilha, mansarda, mão-francesa, maquete. Ótimo. Agora já posso conversar com Armando com alguma propriedade. Pilar, pilastra, pilotis, pináculo.

Capítulo 56

Hoje é dia de quebrar o muro que divido com o vizinho. Hoje é dia de marretas.

Capítulo 57

Ouço o som de um veículo pesado estacionando em frente de casa. Não pode ser a caçamba, penso. A última caçamba já tinha sido retirada pela manhã e Armando, que eu saiba, ainda não havia pedido outra. 

Capítulo 58

Do caminhão desce Silvana. Carrega Cecília no colo. Papai, papai. A menina ainda me ama, penso.

Capítulo 59

Era um caminhão de mudanças. Silvana havia tomado medidas extremas sem nem sequer me consultar. 

Capítulo 60

Silvana me xinga alto na rua. Cecília balbucia uns xingamentos em seu auxilio. Quem diria que as primeiras palavras da menina seriam crápula e sacripanta.



Capítulo 61

Percebo que os pedreiros param o serviço para acompanhar nossa discussão. Parecem deliciar-se com cada palavra de Silvana. Não ouvem nenhuma palavra minha porque eu não as disse, covarde que sempre fui para brigar em público. 

Capítulo 62

Dois homens saem do caminhão e passam por mim como se eu não existisse. Entram em minha residência e começam a retirar coisas sob a orientação de Silvana. Vejo passar por mim o berço de Cecília. Ouço os pedreiros rindo. Ao menos agora sei que Adam é capaz de emitir algum som.

Capítulo 63

Peço aos pedreiros para suspenderem a obra por hoje. Ou bem se reforma ou bem se divorcia. As duas coisas numa só tarde, eu não consigo conciliar. Armando não aceita. Em primeiro lugar a obra, senhor. A obra não pode parar. E se põe a marretar até o fim da tarde.

Capítulo 64

É noite quando o caminhão se vai. Cecília me dá tchauzinho da boleia. Papai sacripanta. Papai sacripanta. Silvana me dirige uns últimos impropérios antes de partir, algo sobre passar dos limites e cavar a própria cova. 

Capítulo 65

Ainda não consigo digerir bem os acontecimentos do dia anterior. Armando não parece ter se abalado. São seis e dezesseis e já sinto o cheiro do café vindo da cozinha. 

Capítulo 66

Terei que fazer outro café. O de Armando só foi o bastante para ele e para Justin. Uma pena.

Capítulo 67

Armando me chama para conversar. Lá vem mais lista de material, penso.

Capítulo 68

Armando reclama de cansaço. Mora do outro lado da cidade e precisa madrugar para chegar em minha casa tão cedo. Sugiro que chegue mais tarde. Armando não aceita. A prioridade tem que ser a obra, senhor.

Capítulo 69

Armando sugere que não precise mais voltar pra casa dele ao fim do expediente. Agora você tem um quarto livre, senhor. Dá muito bem para Michael e eu.

Capítulo 70

Com uma argumentação tão consistente assim, não vejo meios de negar. Cedo o quartinho de Cecília para os pedreiros até o fim da empreitada, desde que o entreguem limpo e em perfeitas condições de uso ao final.

Capítulo 71

Aproveito a manhã sem marretas para estudar um pouco. Sacada, saguão, saibro, samca. Preciso reconquistar minha autoconfiança perdida, meu respeito para com os pedreiros. Taco, talude, tapume, telhado.

Capítulo 72


Cai a tarde. Melodia de pregos sobre tábuas. Não vou ligar pra Silvana.

Capítulo 73

Fico curioso para ver como está a obra. Me constranjo em ir para o quintal assim de sopetão. Seria muita indiscrição. Os recentes olhares de Arnold, o pedreiro-ajudante, desencorajam qualquer investida desse tipo.

Capítulo 74

Dou voltas a esmo pela casa. Não consigo ficar sentado.

Capítulo 75

Encontro com a minha cara no espelho grande do corredor. Me sinto muito velho.

Capítulo 76

Este passeio pela casa me deprime, sobretudo quando chego na cozinha, nunca vi tanta areia assim desde a última vez que fomos pra praia. Me tranco no escritório.

Capítulo 77

Fim da tarde. Ouço barulho do chuveiro.

Capítulo 78

É Armando que se banha depois do expediente. Agora eles moram comigo, me recordo. 

Capítulo 79

Peter espia a geladeira com cara de desgosto. Explico constrangido que amanhã mesmo farei compras. Vou dormir cedo para evitar maiores constrangimentos.

Capítulo 80

É sábado. Armando não se importa. O encontro no corredor às seis e quinze e de pijama. Com meu pijama. Não me diz bom dia.

Capítulo 81

Começo a ficar preocupado com os pedreiros. Decerto que não estou os tratando bem. Vou conversar com Armando.

Capítulo 82

Armando deixa tudo bem claro. Que o trabalho vai bem, obrigado. Que mais uma semana termina o quintal, que até amanhã me passa mais uma lista de compras, que posso já ir chamando mais uma caçamba que vem entulho grosso por aí, repete que não, que definitivamente não tem nenhum problema com o trabalho, mas que ele e Michael não podem dormir juntos no mesmo quarto.  A noite passada havia sido um sufoco para pegar no sono, que nem havia hoje disposição para trabalhar e que só o fazia porque, afinal, a obra não pode parar.

Capítulo 83

Me compadeço e cedo meu quarto ao Armando. Me envergonho por não ter oferecido antes. A partir dessa noite, dormirei na sala.

Capítulo 84

O muro já está pronto e o vizinho ainda não pagou a parte dele. Finge que não me vê quando o encontro na rua.

Capítulo 85

O dinheiro está acabando. O gasto com material está sendo bem maior do que o imaginado. Ligo para Silvana e a secretária eletrônica informa que o número não existe. 

Capítulo 86

Me excluiu das redes sociais também.

Capítulo 87

Vou ter que bancar a obra sozinho. Refaço as contas e vejo que que não vai dar pra continuar comendo marmitex. 

Capítulo 88

Reparo que os pedreiros finalizaram o canteiro no quintal. Há embalagens de sementes espalhadas pelo chão. Vejo que são de cenoura. Eu não gosto de cenouras, Armando. Mas eu gosto, senhor.

Capítulo 89


Cristopher toma banho, enquanto Armando se diverte jogando em meu computador.

Capítulo 90


Pediram pizza. Meio a meio. Metade para Armando, metade para Donald. Durmo com fome.

Capítulo 91

É sábado e os pedreiros decidem ficar acordados até mais tarde. A luz da tevê e as gargalhadas me impedem de dormir.


Capítulo 92

Os dois sentam-se em banquetas já que estou ocupando o sofá inteiro. Me constranjo com a indelicadeza. Que péssimo anfitrião que sou.

Capítulo 93

Saio pé ante pé para não atrapalhar o filme e me dirijo à garagem.

Capítulo 94

Com algum esforço encontro a barraca de camping. Estava um pouco empoeirada, mas o suficiente para passar a noite. Não a usávamos desde a lua-de-mel.

Capítulo 95

É domingo e acordo com dor nas costas. 

Capítulo 96

Não me encorajo a sair da barraca. Penso sentir cheiro de churrasco.

Capítulo 97

Escuto a campainha. Por um momento penso que é Silvana, mas logo percebo que não.

Capítulo 98

Pela conversa noto que são os familiares de Armando que vieram visitá-lo. Uma voz de senhora que certamente é sua mãe. Imagino que a família de Joe também deve vir mais tarde. Domingo é dia de receber a família, afinal. Também costumava fazer isso com Silvana.

Capítulo 99

Pela primeira vez ouço a voz de Stuart, o pedreiro-ajudante. Ele está cantando.

Capítulo 100

Sem que ninguém perceba, pulo o muro e deixo a casa. Ainda tive ímpetos de voltar e pedir algo para comer, mas não quis atrapalhar a família. 





quarta-feira, 21 de junho de 2017

Sobre bloqueio, inverno e resfriado


terça-feira, 20 de junho de 2017

As paredes nuas

Quando o velho abriu a porta para entrar em casa já estava escuro. Não dava para enxergar um palmo adiante, mas não precisou tatear o caminho. Depois de tanto tempo esticou a mão direita, que pousou de forma certeira sobre o interruptor.

A sensação foi de que a luz, inundando a casa, esvaziou seu peito. Já haviam levado quase tudo. Não fazia ideia de onde poderia encontrar novas memórias para remobiliar aqueles cômodos. Ele hesitou em seguir adiante, mas não havia para onde voltar.

Nunca tivera um gato, apesar de simpatizar com os bichanos, mas lembrou de que costumam associar os felinos com um apego à casa, mais que aos donos. Não faz sentido. Analisando o que sentia, considerou que talvez os gatos se apeguem às lembranças. Os cheiros, os sons, as histórias vividas. Não havia sobrado quase nada.

Não queria que sua vida passasse por essa metamorfose. Pensou em Gregor Samsa, personagem de Franz Kafka que acorda metamorfoseado em um inseto. A relação era válida. Era assim que se sentia. Um bicho repulsivo, asqueroso, talvez até nojento, e completamente incapaz de mudar a própria condição.

Gregor. Gregório. Soava bem, principalmente por soar péssimo. Um nome antigo, anacrônico, nada atraente e sem graça. O velho achou que poderia se chamar Gregório ou ao menos passar a se apresentar assim.

Consciente de sua condição, assim como a personagem do livro, sabia que na impossibilidade de alterar a própria imagem, o melhor a fazer era permanecer recluso. Trancado no quarto. Longe dos olhares que denunciariam a repugnância que ele causava.

Essa atitude não era nada confortável, porém era a que gerava menos problemas. Mas um imóvel vazio era demais. Quando sozinho podia reviver as lembranças guardadas nos móveis. Agora nem isso seria possível. As paredes nuas repetiam cada barulho, com um eco que martelava seus ouvidos.

Kafka foi mais bondoso com seu personagem. Ao antever a retirada da mobília o inseto pode assumir os riscos de sair de seu esconderijo e tentar agir. Sabia que o preço seria alto, mas não tinha alternativa, a não ser expor sua desagradável imagem. O velho Gregório estava em dúvida. Não sabia se havia demorado para agir ou se mais uma vez era um velho impotente diante de um destino inevitável.

Um banho. Por mais vazia que a casa estivesse ainda havia a possibilidade de tomar um banho. Nem muito curto, nem muito longo. O suficiente para ter certeza de que a sujeira que sentia no corpo não sairia com água e sabão.

Ao terminar percebeu que o banho era mesmo sua única alternativa ali e que não havia adiantado nada. Não tinha para onde ir, mas ficar na casa vazia não fazia sentido. Voltou a entrar na mesma roupa que vestia, trancou a porta por hábito, já não havia nada de valor ali dentro, e saiu sem rumo.

Voltou a pensar na sorte do personagem de Kafka e andou pelas ruas do bairro esperando, em vão, aquela maçã redentora do livro. Isso o faria sofrer profundamente. Gragor Samsa deve ter sentido uma dor lancinante até perder os sentidos e finalmente romper os laços que o mantinham às convenções sociais.

Gregório não teria a mesma sorte. Sua dor seria crônica. Nenhuma maçã nem nada do tipo o libertaria daquela prisão psicológica. Levou toda uma vida colocando tijolos sobre tijolos em um muro que o protegesse do mundo. Agora o jeito era permanecer ali, rodeado por um muro e mais nada. Andando pelas ruas e ouvindo seus pensamentos ecoarem no vazio de seu muro interior.