quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

SOBRE CHUVA, CELULAR, E FUCKING PERFECT!

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Quando o ano começa

Poucas coisas deixavam Edivaldo mais irritado do que dizer que o ano só começa depois do carnaval. E o que ele fazia desde o começo do ano, era o que?

Sua vida era entre Corinthians e Palmeiras. Da estação Itaquera para a Barra Funda e vice-versa, inúmeras vezes. Aprendeu e desenvolveu técnicas que compartilhava com os companheiros de trabalho.

“Olha a bala docinha, que de amarga já basta a vida! Minha nossa, uma atriz de cinema resolveu pegar o metrô hoje; vai uma bala, princesa? Pessoal, eu estou desempregado, preciso sustentar meus filhos, pagar o aluguel, estou aqui vendendo bala com toda dignidade.” Às vezes cansava e apenas distribuía os pacotinhos de bala pelos colos fatigados e voltava recolhendo.

Todos os dias aparecia algum inocente querendo ajudar. “Tem que ir na linha amarela, lá o pessoal é cheio da grana!”. Isso. Cheio da grana e cheio de urubu, doidos para confiscar a mercadoria.

Isso era outra coisa que deixava Edivaldo puto. Se conformava com os olhares de censura, desprezo, até nojo que algumas pessoas lançavam, mas precisava denunciar seu trabalho para os urubus? Vira e mexe tinha que fugir para não perder a mercadoria, que dava um lucro tão pequeno.

Um fim de semana antes do carnaval resolveu que nem ia trabalhar. Não valia a pena. Melhor pegar o metrô só para comprar mais balas do fornecedor e sair para vender só durante a semana, que era mais lucrativo.

Ficou surpreso. Quanto mais se aproximava do centro, mais o metrô enchia. Festa estranha, gente esquisita, gliter, tiara de unicórnio, homens com roupa de mulher e uma gritaria danada nas estações. Bando de hipócritas que não têm o que fazer, pensou. Se ele gritava para vender as balas todo mundo denunciava, agora ficavam lá gritando por nada.

Na volta foi ainda pior. Com a mochila pesada, carregada com mercadoria para vender durante a semana, tinha que driblar toda a playboyzada festejando sabe-se lá o quê. Achou que tivesse tirado a sorte grande ao entrar no vagão e ver um banco vazio. A viagem era longa e a carga que carregava era bem pesada.

Doce ilusão. O banco não estava vazio, mas ocupado por uma poça de vômito. Contra isso não havia denúncia. Não era crime emporcalhar o metrô, o que não podia era trabalhar dentro do vagão.

De repente Edivaldo teve a grande ideia, que brotou daquela poça de vômito amarelado, com grumos vermelhos, de uma daquelas pessoas descentes que denunciavam seu trabalho. Aproveitou a mochila lotada, pegou um pacote e começou.

“Olha a bala docinha pra tirar o gosto ruim da boca! Aqui tem glicose para evitar a ressaca! Olha a bala pra dar um beijo docinho na gata!”

Edivaldo nunca vendeu tanto em tão pouco tempo. Nem os urubus, preocupados com as brigas dos bêbados, incomodaram. Exagero dizer que o ano só começa depois do carnaval, mas no fim até que deu uma boa ajuda.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

a insustentável dureza (ops - leveza) do ser

Acabei de assistir no youtube o pronunciamento sobre a reforma da previdência do qual o Silvio Santos e presidente interino se esforçam para convencer o público de que a reforma da previdência é imprescindível.

O discurso está numa linguagem popular e os bons velhinhos capitalistas fazem uso de jargões religiosos (pensamento maléfico, pensamento positivo) e domésticos (colocar azeitona na empada) para convencer-nos da necessidade para eles de reformar a previdência.

O argumento principal do discurso se não aprovar a reforma da previdência não existirá dinheiro para pagar os aposentados. E assim ocorrerá como noutros países de não ter dinheiro para os aposentados.



Fico com dúvidas sobre essas afirmações dos bons velhinhos capitalistas Silvio, Temer, Marinhos e etc, nunca sei se o estado burguês está prestes a ruir ou quer deixar de existir ou deseja promover a guerra civil entre povo e instituições.

O que aconteceria se de repente o estado deixasse de pagar os aposentados? Qual seria a reação dessas pessoas? Como foi e está sendo a reação das pessoas de outros países quando aconteceu de acordar e não ter dinheiro para comprar comida, pagar contas e etc?

Quando calamidades orçamentárias batem a porta qual é a melhor opção para que guerras civis não aconteçam?

 1-Exigir que empresas devedoras da previdência paguem/quitem as contas com estado.

 2- Cortar recursos para empresas que não conseguem se manter/fechar as contas sem dívidas. E daí entender se o setor privado não consegue lidar com fechamento das suas contas porque então privatizar o que é público?

3-Não fazer a reforma da previdência.

E se porventura em último caso se necessária de fato que tal fazer a reforma para todos, então que sejam incluídos (militares, políticos e judiciário) pois assim todos entram na guerra e o estado burguês e canalha sucumbe de uma vez.

Depositar essa conta nas costas dos trabalhadores usando os bons velhinhos ricos dentre eles donos de emissoras e empresas que devem a previdência está fácil quero ver apresentar a conta para todos pagar e ainda sim sair ileso da situação.

Perdemos o fôlego do Fora Temer. O Fora Temer tinha muitos significados tanto para direita quanto esquerda. A parte que mais interessou foi da possibilidade de desarticular as reformas com Fora Temer e Greve Geral. Não aconteceu.

Desde ano passado as atenções se voltaram para eleições entre defender candidatura do Lula e decidir eleição entre PSDB e PT com espaços para MDB sigla na ditadura civil militar/PMDB se articular e ficar na sombra das negociações do estado.

Os movimentos sociais estão apoiando o que resta da esquerda e infelizmente não é uma escolha. Porque não temos um movimento autônomo e de auto-gestão que possa contemplar todas as pautas, moradia, saúde, mobilidade, cultura, educação e etc. Mas isso seria a revolução.

E revolução é desobediência civil.

E infelizmente a desobediência é para quando há interesses difusos e individuais. 

O resultado disso chega no dia a dia. Hoje foi com esta declaração da ministra aqui , uma amostra do que é o fortalecimento de uma classe logo após aprovada uma reforma, neste caso trabalhista.

Ah falta um mês para aprovar a reforma da previdência.

Também poucos dias para o carnaval, pra mim está sempre bom é melhor dançar do que sofrer por antecedência.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

O vão entre o trem e a plataforma

Eram só ele e ela no último dos trens noturnos com destino à Luz. Subiram no Butantã. Ele e ela no mesmo vagão. Ambos só desceriam no final. Ele perguntaria as horas, ela responderia. Ela perguntaria o nome, ele responderia. Para emendar, ele perguntaria o dela. Falariam da lentidão do veículo, do frio do ar condicionado, da sorte que tinham por terem conseguido pegar o último trem. Antes de chegar na Paulista, já saberiam onde um e outro moravam e o que gostavam de fazer nas tardes de domingo. Quando estivessem na República e o auto-falante anunciasse que a próxima era a última estação e que por gentileza desembarcassem todos, já teriam trocado os telefones e combinado algo para o fim de semana seguinte. Na Luz, se despediriam com um beijo no rosto e com a promessa de mais conversas como aquela. Próximo domingo, ela diria. Próximo domingo, ele diria. Formariam um belo casal, desses que a gente não imagina separado. Teriam filhos. Dois. Um casal de gêmeos lindos. Teriam feito tudo e talvez até um pouco mais, mas antes mesmo de Pinheiros, ela tombou a cabeça sobre o vidro e se perdeu distraída lendo as placas de publicidade. Teriam feito tudo e talvez até um pouco mais, mas assim que sentou no banco e ajeitou as pernas, ele levou mecanicamente a mão ao bolso e pegou seu telefone. Foi jogando cartas no aparelho durante todo o trajeto para não sentir o tempo passar. Ao chegar na Luz, cada um saiu por uma porta. Ela virou para a direita. Ele virou para a esquerda. Nunca se lembrarão de nada disso.

domingo, 21 de janeiro de 2018

À DERIVA

Queria falar das cores alegres, as mais vivas que lhe vinham à mente, mas de nada adiantava.
O cinza e as cores mais escuras predominavam.
Queria falar da alegria dos raios solares, do canto dos pássaros ao longe, do som das ondas batendo no casco. Mas de nada adiantava.
O vento frio que vinha do Sul ainda o fazia tilintar os dentes.
Queria falar de tanta coisa, mas as coisas é que falavam dele.
Meses já haviam passado, mas era como se tivesse sido ontem.  E não tinha com quem compartilhar tamanha frustração. O rádio havia muito não funcionava. Nem pombo-correio poderia se dar ao luxo de usar. Não. Eles não chegavam ali.

Sensação horrível de se estar à deriva, sem sinal de terra firme, de não ter onde se agarrar.
Pensava que, àquela altura, já deveria ter chegado. Já deveria estar com ela, mas não.
E agora, nem certeza de que era esperado tinha mais. Tudo sumiu como fumaça.

Resolveu então escrever.

Aquela caligrafia horrível.
Por causa da digitação que era super rápida, segurar numa caneta já não era mais o seu forte. Mesmo assim, ousou tentar.

O quê dizer? Com quem falar?

Ninguém iria ler. Provavelmente, ninguém veria aquele escrito.

Mesmo assim, ousou escrever.

“Errei o caminho. Tentei acertar. Não consegui. Não sei se vou chegar. Mas se chegar, tudo estará diferente. Já não estarão mais esperando. Não posso culpa-los. Uma pena. Tudo poderia ter sido diferente se chegasse no tempo certo. Mas não foi assim que aconteceu. Espero que estejam bem. Em mim, dói a saudade. Que pretendo matar quando chegar. Mesmo estando diferente, e encontrando não mais as pessoas que deixei, mas as pessoas nas quais vocês se tornaram. A vida é assim. Somos como as estrelas. Muitas vezes, o brilho que vemos, é o passado. O presente pode ser bem diferente. Mas ainda assim, não podemos esquecer de olhar para o horizonte. Onde as estrelas brilham. Lá, bem longe, enquanto umas morrem, outras nascem. Nascem para ocupar o lugar daquelas que se foram. Mas que jamais serão esquecidas.”

sábado, 20 de janeiro de 2018

Feliz 2018?

  • Bom dia, seu Agenor! Feliz ano novo! Muita saúde, paz, prosperidade para o senhor e para sua família, que 2018 traga muitas realizações, muito dinheiro e muitas alegrias!
  • Hum. Igualmente.
  • Mais um ano de trabalho, né, seu Agenor. Esse promete!
  • Que nada. Começou mal.
  • Por que, seu Agenor?
  • Já viu o tanto de feriado que tem nesse ano? Sem contar a tal da Copa, que acaba virando folga coletiva.
  • Ainda bem!
  • Como?
  • Ah, eh... "o que é que tem", seu Agenor?
  • Tem que a produção despenca, a economia encolhe, os números baixam! OS NÚMEROS!
  • Verdade. Mas pelo menos dá para viajar um pouquinho, encontrar os amigos pra ver os jogos em algum barzinho, né, seu Agenor.
  • E isso aqui é agência de viagens? Você vende cerveja pra ganhar a vida?
  • Não, seu Agenor, é que eu pensei que...
  • Pensando, de novo? Você não é pago para pensar. Vai, para de enrolar.
  • Seu Agenor?
  • Que é?
  • Nada, vai...

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

É melhor investir em imóveis do que em relacionamentos

Desde pequena sou observadora, mas tudo na vida que é uma benção também é uma maldição. Observo tanto que acabo vendo coisas que não gosto e me deixam triste. E além disso tenho uma memória excelente, lembro de tudo, de datas, nomes, momentos.

De repente cismo com alguma coisa e começo a observar. Já faz muito tempo que venho reparando algumas coisas em casais amigos. Instintivamente, mesmo novinha, sempre achei que isso de casamento, de dividir vida, era uma coisa meio sufocante, eu sentia isso, mas não conseguia explicar o porquê.


Tenho lido muito sobre a questão do papel da mulher em uma sociedade machista e percebo como muitas das minhas crenças eram errôneas e talvez eu sentisse isso no fundo da alma, que alguma parte discurso estava errada, e eu  tentava reagir. Lembro muito de sempre ter escutado uma frase ''para os homens o amor é um capítulo, para as mulheres o livro inteiro''.


Em um patriarcado o que se espera das mulheres era que se jogassem no relacionamento, se entreguem por completo e vivam em função do homem. Mesmo no século 21 vejo em algumas amigas mais disposição para viver a história de amor do que os homens. Eles juram mais, mas na prática quem compra a questão inteira é a mulher, ela vira uma parceira automaticamente, enquanto eles vão encostando.


O tempo passa e amigos que eu vi casar há alguns anos começam a dar sinais de desgaste. Tudo na vida um dia acaba, o problema é quando essa coisa se arrasta meses e faz todos sofrerem.


De tanto observar comecei a perceber o seguinte, vale muito a pena investir em si mesmo, seja estudando, seja fazendo alguma coisa que traga prazer. Também vale a pena investir em imóveis e nos filhos, tem alguma coisa ali de amor incondicional. Mas fora isso, investir em um relacionamento é a maior roubada que a pessoa pode fazer, é como guardar dinheiro embaixo do colchão, depois de anos resolvem usar o dinheiro e ele não vale mais nada, porque são notas antigas.


O outro, a outra, são areias movediças e o que se pode construir em terrenos assim? Nada. O ser humano não é confiável e não é mais tão seguro quanto um dia pareceu ser. Hoje as coisas se movimentam diferente e as pessoas se sentem livres para procurar o que tem vontade de fazer, sem amarras. Isso é muito bom, mas quem investe em um relacionamento tem todas as chances de se dar mal, porque não pode prever as reações alheias.


Vi amigas que investiram pesado em relacionamentos se esfolando vivas. Quantas coisas a gente investe em nós mesmos e não dá em nada? Imagina no outro, esse ser que não conhecemos.


Bom mesmo seria viver o amor, a paixão livremente, sem investir nada além do mínimo, sem sacrifícios e discussões que não levam a nada, deu certo, então vai em frente, emperrou, sai fora, mas não invista.


Não só amigas vi morrer na praia, também as mulheres da minha família. De geração anterior se dedicaram a trabalhar, cuidar dos filhos e incentivar o benhê, esse amor que com o tempo vira encosto. Não receberam nada por isso, pelo investimento no seu amor, pelo contrário, foram abusadas e exploradas até a última gota.


Quando estamos com alguém não damos só nosso amor, também vai a energia, o tempo, muitas vezes o dinheiro, e outras coisas, tudo isso deve ser colocado em um papel e se perguntar se vale a pena investir tanto em alguém e qual será o retorno.


Sempre que escrevo isso alguém vem me dizer que eu sou fria, porque pessoas quando se apaixonam são felizes, a vida é sobre isso. Ah, é mesmo? Bom saber, porque pior do que o amor é o tempo, esse sim devasta tudo e te joga na cara todas as bobagens que você fez. Se eu sei que não vale a pena investir em um relacionamento é porque já perdi alguma coisa e me vi obrigada a fazer as contas e perceber que investir em pessoas sempre dá prejuízo.


Acho ótimo amar, beijar, ficar, se apaixonar, tudo isso é bom demais, mas conheço o prejuízo do dia seguinte, que pode custar anos para a pessoa se recuperar. Por isso quem quiser investir no seu amor tem que ter espírito de monge tibetano, uma coisa desapegada mesmo, então a pessoa investe e não sofre ao perder tudo. Mas eu não sou monge, nem tibetana, sou virginiana e pão dura, não me interessam investimentos que não vão me dar retorno e ainda por cima dão prejuízo.


Meu avô no seu machismo sempre dizia:


-As mulheres nem todo o ouro, nem todo o amor.

Em uma versão atualizada gosto mais de pensar -''As pessoas nem todo o ouro, nem todo o amor''. Precaver não mata ninguém. E tudo que pensamos ser digno da nossa atenção e amor, pode não ser. Mas quem vai cuidar dos nossos investimentos? Nós. E se não prestamos atenção nisso quem vai pagar o erro somos nós.

Iara De Dupont

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Do alto de minha ignorância assisto a documentários

Sabe, não tinha com quem comentar, então te pedi para conversarmos sobre. Tudo bem, você não assistiu, mas, em minha cabeça, você é uma das únicas pessoas capazes de entender minhas reflexões, que não servem de nada na vida prática. Então eu te peço que assista a três horas sobre a vida de uma escritora americana da década de 1970, mesmo sabendo que nunca vai ler porcaria nenhuma da obra dela. Quando me chama para conversar e pergunta o que achei, não sei responder. Você precisa de alguém com quem conversar sobre documentários, e não sou eu.

P.S.: não deixem de assistir a "Joan Didion: the center will not hold", um primor, apesar de nossa ignorância.

Photograph by Julian Wasser.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

liberdade é pouco

Não tinha a intenção de escrever. Sequer programado (mentalmente) assunto  ou separado vídeos como lembrete para ano que vem comentar, mesmo após meses de divulgação ou depois de ter cessado o frisson pós-viral das redes.

Ainda continuava naquelas, manter de julho para cá a saúde mental intacta ou diminuir o cansaço mental com questões de toda ordem. Ou armazenar forças para o ano que vem que promete ser a junção de alguns anos em apenas um.

Só por hoje e mês passado não vou conseguir manter o objetivo do meio do ano.

 E justo na reta final, numa gama absurda por férias para fazer muitos nadas com a cara para cima.

Também por mais que queira e tenha me esforçado não consegui mudar a direção do pensamento. Ele ficou no filme apresentado hoje na parte da manhã e em algumas palavras que ruminaram para o passado religioso.

O filme é possível resumir em mais constatações de que o mundo é hostil e violento com a existência das mulheres. E sendo violento com mulheres continuará sendo com crianças, gays, idosos e mais objetiva com todos/as.

Já sobre as palavras ficou aquele eco sobre cárcere, jargão muito comum nesta época e usado por alguns religiosos. Mas o esquisito mesmo é que desde meados de setembro é algo que tenho me questionado quase sempre: quando estamos todos presos é possível se livrar de cárceres?

Quando o país depende de políticas econômicas ou bancos que priorizam minorias pode ser considerado livre? Quem tem tempo mas não tem dinheiro é livre? E quando tem dinheiro e não tem tempo? Aqueles que estão desempregados estão livres? E quem trabalha? E quando algum governo/país decide priorizar os pobres e é considerado violador de direitos e  falido economicamente ?

Existe alguém livre?

Porventura alguém pode ter esse luxo de se considerar livre?


Acessar o conhecimento e a sua história mesmo com muitos lados, mas baseada em fatos proporciona isso fazer muitas perguntas sem respostas. É como estar nas alturas em meio à tempestade com furações e raios e trovões mas conseguir colocar a mão numa porta e abrir o céu limpo sem nuvens e com muitos raios de sol.

Entender que este conhecimento está a serviço da vida e do que é cotidiano é como estar no alto mar, afundar metros e metros de profundidade e conseguir abrir os olhos mesmo com tanta água salgada e ver a beleza do mar; ainda sim voltar a emergir para ver mesmo que às vezes um dia de verão com brisa.

Usar o conhecimento no dia a dia com objetivo ou propósito comum a todos e priorizando o coletivo é identificar que existem muitas amarras e correntes quando se trata do coletivo, ou do que é comunitário ou ainda do que é comum a todos/as, enquanto povo.

No resumo, enquanto tudo estiver no âmbito individual é sobrevivência garantida durante pouquíssimo tempo, no mais, mencionou coletivo, vamos pensar uns nos outros se prepare para estar diante da porta das chagas e do inferno.

Então os cárceres por mais íntimos e pessoais que sejam se tornam indestrutíveis e fora do alcance das mãos porque quando o individual está intacto e totalmente responsável por transformar ou modificar a vida e história, é porque o que é coletivo/comunitário ou do povo está caindo num poço sem fundo.

Identificar  qual é o fundo do poço  não é uma opção,  mas uma questão de sobrevivência. E o tempo urge e infelizmente não nos favorece, porque ao alcance  e velocidade dos algoritmos as janelas se fecham.

Mesmo assim  2018 pode ser mais um de tantos anos que virão de resistências se o sentimento coletivo de luta prevalecer.  Na pior das hipóteses podemos ainda ver o poço sem  fundo e destruir o que nos explora e nos oprime; ou podemos sentir as várias correntes  nas mãos, nos pés e na mente, mesmo assim ainda será ótima oportunidade para quebrá-las.





sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

O encontro

- Tudo bem? 

Lembrou-se que esta noite dormira mal por causa dos pernilongos e também por causa do calor abafado que fazia na sala. Lembrou-se que dormira na sala porque sua presença no quarto, ao lado da mulher, já não era mais bem vinda, sobretudo depois do que acontecera ontem. Lembrou-se do café fraco que tomou no bar da esquina e da sensação estranha, misto de descrença e impotência, quando viu que o balconista levava o café para ser requentado no microondas. Lembrou-se do sabor de petróleo que tinham os cafés, sobretudo os fracos, quando requentados no microondas. Lembrou-se do Largo da Pólvora lotado e de como o cobrador não lhe respondera ao seu "bom dia". Lembrou-se da angústia que sentiu ao perceber que o ônibus chegava ao seu destino e de que tinha que trabalhar mais uma vez naquele escritório estéril e olhar mais uma vez para o bigode ensebado e tingido de seu chefe. Lembrou-se de que tivera que almoçar sozinho, porque não tinha estômago forte o bastante para olhar a nenhum de seus colegas enquanto comia. Lembrou-se do gosto de ranço da carne e na quantidade absurda de sal que por descuido caíra em sua salada. Lembrou-se que se importara com isso por causa de sua hipertensão galopante, que havia lhe obrigado a tomar aqueles remédios caros, depois dos últimos exames. Lembrou-se de que ainda era segunda-feira. Lembrou-se da necessidade que tinha de ir aquele bar, depois do expediente, e do enfado, provavelmente mal disfarçado, que sentiu ao encontrar aquela figura conhecida e que agora lhe perguntava se estava bem. Lembrou-se do inútil que seria ser sincero.

- Tudo. Tudo ótimo e você?

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Feliz Natal! Feliz ano novo!

Galera, desculpe o mal jeito.
Minha vida, como muitas de vocês também, está corrida pakas nesses final de ano.
Falta menos de uma hora para terminar o dia 21, mas eu não poderia deixar de passar aqui para deixar um abraço.

No post do mês passado, coloquei uma gravação aqui, na qual meu cachorro latia. Quem ouviu, deve se lembrar.

Ele se foi.

Viveu 16 anos comigo e com minha família. Dia 04 de dezembro, ele descansou. Era um pastor belga. Simplesmente, parou de "funcionar".
Tive o privilégio de, junto de minha mãe e meu irmão, proporcionar à ele uma partida sem sofrimentos. Graças à Deus, não precisamos fazer a eutanásia. Ou sacrifício, como muitos chamam.

Quis compartilhar com vocês.

Obrigado pelas audições e pelas leituras no decorrer desse ano de 2017.

Espero ser mais fiel em 2018.

Grande abraço à todos (as).

Feliz Natal e feliz ano novo!

P.S.: Perdão por não ter trabalhado melhor esse post. Estou escrevendo direto do meu celular!

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Calma, é o Papai Noel!

Salvador havia começado a ficar inquieto com uma semana de antecedência. Detestava essa época do ano desde que se entendia por gente e nesse ano decidira partir para o tudo ou nada. Chega de passividade, compreensão e tolerância.

Cheirou um pouco do que chamava de pó mágico da coragem e, com uma habilidade felina, entrou na casa pela porta dos fundos. Era o tipo de casa em que ele nunca poderia entrar pela porta da frente.

Caminhou tão silencioso quanto a noite, guiado de forma intermitente pelas luzes do pisca-pisca. Chegou à sala, que aos seus olhos parecia uma casa inteira, e estava agachado diante da estante, prestes a vasculhar uma gaveta, quando ouviu um tilintar do lado de fora.

Congelou. Não era possível. Tomou todos os cuidados, viu a família inteira saindo, carregavam intermináveis sacolas cheias de embrulhos. Não poderiam ter voltado tão rápido.

Ao ouvir um barulho mais forte, seguido da luz branca que se acendeu do outro lado da sala, Salvador não hesitou. Buscou a arma na cintura e levantou girando o corpo, com o braço direito esticado para frente. Não voltaria para a cadeia. Tudo bem se fosse para o cemitério, mas para a cadeia, nunca mais.

Um pouco ofuscado pela luz forte, mirou na figura branca de roupas vermelhas e ouviu uma voz tremula.

- Calma! Sou eu. O Papai Noel.

O Papai Noel. A única pessoa a quem Salvador chamou de papai em toda sua vida. Aquele em quem depositou esperanças por tanto tempo. A fonte de angústias, decepções e culpas intermináveis.

A aflição da época de criança começava no fim de novembro. Precisava ser um bom menino para ganhar presente. Mas como, se tudo o que fazia era considerado má-criação?

O mês de calvário desembocava, inevitavelmente, na mais profunda culpa. O presente não veio, o que significava que não conseguira ser um bom menino. Salvador assumia a culpa, tolerava a falta do brinquedo que havia pedido ao Papai Noel, mas nunca compreendeu porque a família toda tinha que ficar sem a ceia graças a ele não ter sido um bom menino.

A promessa de Ano-Novo era sempre a mesma. Seria um bom menino. Não deixaria a família ficar sem a ceia de Natal de novo. Não adiantava. Simplesmente não conseguia. No primeiro ano não estudou direito, no seguinte arrumou brigas, depois abandonou a escola, começou a usar drogas, começou a roubar. Era impossível ser um bom menino o ano inteiro.

Quem diria! O Papai Noel. Um encontro quando já havia perdido a esperança. Aguardou a vida inteira por esse momento. Ele que nasceu no dia 25 de dezembro, e por isso ganhou o nome de Salvador, carregou o peso de ter estragado todos os natais da família por não ser um bom menino.

Salvador esperou trinta e três anos até ter a chance de cumprir o desígnio de seu nome. Manteve o braço direito esticado e disparou três vezes à queima-roupa. Sentiu na mesma hora o peso de uma vida retirado dos ombros.

Andou calmamente até a porta da frente. Antes de sair olhou no chão o corpo do velho, cuja barba branca já estava tão vermelha quanto à roupa.

- Feliz Natal, Papai Noel.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Tudo bem

Um “bom dia” sem resposta de algum vizinho de condomínio que nem sabemos o nome... Tudo bem, não são todos assim, os mais próximos são bem legais.

O dia estava quente, mas só consegui sair para fazer as coisas na rua momentos antes da chuva. Tudo bem, o clima estava gostoso para uma caminhada pelas ruas do Bairro do Limão, que não é tão tranquilo assim, mas tudo bem, aqui me sinto em casa a 2 anos.

Ao chegar no dentista, soube que arrancaria o dente do siso só no ano que vem. Tudo bem, quem trabalha duro tem direito a descansar eu vou passar as festas com a família e alguns analgésicos e anti inflamatórios e o importante é não sentir dor.

Depois a ida foi ao correio, a fila estava enorme, mas tudo bem porque deu para perceber que muitas postagens eram presentes de Natal para alguém querido que mora longe e só de imaginar isso, a demora vale a pena.

Na sequência fui à lotérica, estava cheia para alguém que não costuma fazer jogos, eu queria apenas recarregar meu bilhete único e ao chegar na minha vez o sistema não estava disponível. Tudo bem, eu já havia gastado o tempo da fila imaginando como aquelas pessoas estão esperançosas por uma vida melhor e buscam isso por meios honestos que ainda estão disponíveis. A moça do guichê disse que na Lan House se carrega o bilhete único, eu não sabia que tinha uma Lan House hoje em dia perto de casa, mas tudo bem... deu certo.

Por fim, fui a farmácia comprar meu analgésico e anti inflamatório. Tudo bem, porque fui super bem atendido por alguém que provavelmente responde um “bom dia” do vizinho.

Ainda caia uma chuva de verão, daquelas fracas e não aquelas que inundam. Tudo bem, eu precisava lavar um pouco a alma e perceber que no final das contas, um dia pode parecer cheio de pequenos obstáculos e numa analogia à vida, nessa época de final de ano onde todos procuramos recomeços e balanços de tudo, tudo bem sorrir sozinho na rua lembrando quem foi legal no seu dia simples, assim como todos os amigos que te fizeram bem no dia anterior, naqueles que fazem a diferença mesmo a tanto tempo sem te ver e mesmo assim tudo bem porque eles ainda te surpreendem e te provam que nunca te esqueceram, através de coisas simples também.

Tudo bem também se em alguns dias tudo parece deixar seu dia apenas cinza, acontece. Tudo bem porque no final das contas, tudo é um grande plano de fundo cinza a ser colorido pelas coisas simples da vida, porém de grande poder.

Bons dias e Light Up the Darkness!

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Debaixo do verniz

Tudo que parece fora do normal nos parece estranho.
Pelo meu perfil e estilo de vida as pessoas não entendem como não tenho namorado, parece uma questão matemática em aberto, que precisa ser resolvida com urgência.

Depois que me perguntam se tenho namorado e escutam minha negativa, abrem o sorriso e dizem ''mas namorada tem né''.

Não, nem namorado nem namorada.

Mas como assim? Você é jovem, bonita, por que não tem um amor?

Ah, amores tenho muitos, platônicos, é verdade, mas são amores.

Muitas coisas mudaram sem que eu percebesse e acabei gostando de alguns resultados.

Me afastei de relacionamentos depois de passar três anos em um namoro abusivo, quando consegui me libertar comecei a perceber tudo que estava errado, fora do lugar e sem querer, não planejei nada, me fechei em copas, disposta a me curar dos abusos e superar as questões envolvidas.

Levei tempo para começar a perceber que minha alegria ao estar solteira e sem pensar em ninguém estava ligada ao fato de pela primeira vez na vida ser ''eu'', coisa que nunca me foi permitida ser.

Eu fui educada para ser o que os outros queriam que fosse, não importava o que eu escolhesse fazer na vida, desde que fosse meiga e educada.
Mas isso me tirava margem de manobra para saber quem eu era, meus primos tinham permitido dizer o que pensavam e explodir a hora que quisessem, eu não.

E quando entrei no círculo de namoros levei toda essa limitação comigo, não me perguntava quem eu realmente era, debaixo desse verniz sufocante de garota bem educada.

E amores, pelo menos para as mulheres, nos sufocam e apertam, impedem qualquer tentativa de mudança. Quem pode ser o que é em um namoro? A pessoa não se conhece ainda e fica presa ali, a uma ideia do que deveria ser.

Não prego as belezas da vida de solteira, porque são escolhas pessoais, mas nunca tive espaço para saber quem eu era, intoxicada para agradar homem, desesperada para ser aceita, eu não sabia quem era, não conhecia meus limites e todas as vezes que tentava sair da linha escutava ''deixa de ser louca''.

Mesmo assim,  fazendo tudo o que me mandaram fazer, não escapei de rótulos, até hoje dizem que sou louca, impulsiva, maluca, descontrolada.

Percebi como nós, mulheres, somos impedidas desde que nascemos de nos mover, de nos conhecer, tudo fecha em nossa direção, nenhuma menina é incentivada a se conhecer primeiro, a saber quem é, para depois pensar em como se relacionar com o mundo. Isso acontece até com nosso corpo, ninguém diz a mulher como é vital se conhecer.

Tem sido uma luta árdua tirar todo o verniz que me jogaram, saber quem eu sou debaixo desse falso brilho, do que gosto, o que me faz feliz, o que posso acrescentar ao mundo e em um relacionamento.

Eu sabia tudo o que os outros queriam e gostavam, mas não tinha a menor ideia do que me fazia feliz, o que me agradava.

Ser solteira me permitiu caminhar nessa estrada pensando nisso, não é questão de ter um namorado ou não, mas se perguntar quem é, o que quer, para onde vai.

Mulheres têm seu caminho pré-determinado em um mundo machista e misógino, sair dessa linha é certeza de que vai ser punida.

Não descarto amores, paixões, nem a vida que se desenha, mas não tenho mais condições de me ficar debaixo de um verniz, fingindo ser o que não sou.

No ano passado um Romeu me disse ''você é confusa''.
Fiquei muito chateada, mas ele tinha razão, naquele momento eu ainda estava confusa, perdida entre quem eu sou e quem deveria ser. Até hoje me controlo porque quando gosto de alguém não sei agir de maneira natural, carrego ainda a tatuagem comportamental de ''faça tal coisa, jamais faça isso'', ainda me sinto intimidada no começo dos relacionamentos e levo tempo para perceber meus erros de comportamento e recuar, voltar ao meu eixo, a quem eu sou, sem medo de Romeu não gostar.

Essa parte melhorou muito, depois que a gente começa a se conhecer perde o medo do outro não gostar, claro que dói ser rejeitada, mas com o  tempo percebemos que ser quem não somos dói mais.

Quem me vê se pergunta porque não tenho namorado, quem me conhece sabe que estou desfrutando o máximo que posso essa etapa de ter espaço para saber quem sou, em um mundo limitado considero isso um luxo, que foi negado durante séculos as mulheres.

Agradar homem é fácil, ser o que o mundo quer é simples, o difícil é bater o pé e dizer ''licença, vou ali saber quem sou e depois eu volto''.

Mas no fim da história não somos o que o mundo quer, nem o que os machos gostam, somos nós, essas desconhecidas que não sabem quem são, essas perdidas que morrem de angústia, sufocadas por todas as exigências. E o pior é que não vale a pena.

Parte da nossa viagem, o motivo de desembarcar neste planeta maluco é desenvolver o autoconhecimento, quando somos impedidas de fazer isso, surtamos.

Não é sobre Romeus, amores, namoros, casamentos, paixões, é sobre saber quem somos, encarar essa estrada longa e complexa, dar prioridade a nossa vida, não a alheia, é sobre cada uma se conhecer, é sobre individualidade e o exercício da liberdade. É sobre ser, sem verniz.





Iara De Dupont

domingo, 10 de dezembro de 2017

Livraria do Estudante

Os livros com que sonhei moravam na Livraria do Estudante e eram guardados pelo Jeremias. Sonhei tanto que queria trabalhar lá. Sonhei tanto que ainda me lembro do cheiro das estantes de madeira. Sonhei tanto que chorei quando fechou.
Ainda bem que os livros que sobraram moram na garagem do antigo dono, e eu pude, então, comprar um daqueles que sempre quis, no esquema 10 ou 20 reais. Este, "Minhas histórias dos outros" do Zuenir Ventura, custava, em 2005 (ano de seu lançamento), R$44,90 que eu não tinha.
O reencontro agora, doze anos depois, com a capa suja e empoeirada e o antigo preço apagado, na última página.
A vida é besta e muito triste, mas tem disso.


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Quando...

 Quando você bate numa criança, você acha que ela aprenderá a não fazer
coisas erradas, na verdade você ensina que ela pode bater nos outros.
 Quando o seu castigo para dois irmãos é mantê-los abraçados, você está
deixando claro que abraçar o irmão é um castigo, e não algo bom.

Quando o seu castigo é lavar a louça, arrumar o quarto ou estudar, você
também está ensinando que estudar, lavar e arrumar são punições.
 Estão aí coisas que esta criança nunca vai querer fazer, que vai associar e
lembrar de coisas e sentimentos ruins.

Quando você expõe seu filho em um vídeo na internet, levando uma bronca,
apanhando, você está mostrando que tudo bem humilhar, desde que você
seja hierarquicamente superior, desde que esse ser dependa de você e não
tenha opções melhores do que abaixar a cabeça e esperar, afinal ele vive
com o inimigo.

O pessoal confunde lição, que é algo com que você aprende, com tortura,
vingança, controle e humilhação.
 Acha que criminoso tem que ser preso pra sofrer, na verdade, era pra
aprender, pra repensar.

 -Ah, mas um tapinha as vezes é bom, sempre foi assim, ainda funciona!
 Dá uma espiada na humanidade e repense se esse velho jeito funciona.
 A gente ás vezes bate sim, mas é por que a gente é bicho, e bicho nervoso
perde a paciência e ataca, avança, é isso que a gente ensina batendo.

Andei vendo esses dias várias postagens dessas de castigo, e o que eu
sinto é uma mistura de tristeza, vergonha e asco.
Eu já apanhei sim, já bati também, e não acho que foi bom, na grande
maioria das vezes teriam maneiras melhores de ensinar.

  Eu não tive essa infeliz ideia de gravar meu filho sendo castigado e nem
posso imaginar como deve ser castrador ter esse seu momento gravado, e
perpetuado, a gente quer é esquecer.

Dê uma pesquisada em vídeos no You Tube, como camisa do castigo ou
apenas vídeos de crianças de castigo.

Criamos gente cheia de ódio e raiva, isso já nasce com a gente nem
precisava reforçar.
Ensinar a gostar de estudar, ler, arrumar, lavar é tão mais difícil...
Tá tudo errado.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Hoje é sábado


Escrevinho com a cabeça antes das letras dançarem sua embriagada dança na folha que abraça a mesa. Elas desenrolam os sentimentos do dia, do mês, dos milênios que envolveram minha ancestralidade.

Tomo fôlego entre um gole e outro. Observo desatentamente o barulho dos carros. O que eu espero não é senão a possibilidade do nunca mais. Um pai em seu cavalo de ferro e terra. Acabo recordando todos os uniformes que chegaram áridos aos olhos do sinal da escola.

Tomo mais um gole. As letras deslizam tons de um baú familiar enquanto deveria solidificar dados. Edificar relatórios.

A comida chega e me é indigesta. Cai em meu estômago como uma boa surra depois das duas da manhã (quando nada de bom pode acontecer).

Subverto as ordens do necessário compasso. Esqueço os planos e a pequena grande lista de impossíveis metas.

Hoje é sábado.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

das misérias nossas e do mundo

De junho pra cá tenho feito o possível para preservar ou fortalecer pouco mais a minha saúde mental. Talvez por isso não tenha me dado o disparate de contar as misérias, sejam as minhas que envolvem outros ou do mundo caduco no qual vivo.

Então decidi que durante alguns meses ia falar sobre filmes e séries e procurar o banal ou alegre nas redes sociais. Durante semanas consegui, depois percebi a impossibilidade de fechar os olhos para a janela do mundo.

As notícias sobre a Líbia divulgadas nas redes sociais estarreceu a todos que assistiram aqui. Menos os jornais e ricos.

Mais estranho a maioria sujeita ao desemprego, a fome e miséria não se alarmar com as cenas de homens sendo vendidos como mercadoria.

Não houve divulgação sequer nos jornais.

Não aconteceu nenhum pronunciamento de presidentes dos países mais desenvolvidos.

Não existiu vinheta nos principais canais de televisão para anunciar que pessoas estavam sendo comercializadas, vendidas e/ou escravizadas em nome do nosso sistema neoliberal, democrático e capitalista.

Diferente do atentado na Somália de algumas semanas atrás quando mais de 300 pessoas morreram e houve alguma veiculação na mídia televisiva sem a igual comoção de outros atentados, esse crime/violência contra a vida e igualmente desumano que até então soube somente pelos livros de história não mereceu nenhuma repercussão.

Mas alguém pode se perguntar por que devemos ou precisamos nos preocupar com a miséria alheia uma vez que está longe e nada podemos fazer, pois sempre existiu e jamais deixará de existir pobres e miseráveis no mundo.

Desde que estive mais próximo das realidades piores que a minha deixei de acreditar que a fome e miséria estavam tão longe de mim. Assim quando li a matéria sobre a criança que desmaiou por fome no Distrito Federal aqui, lembrei das cenas de dois anos atrás para famílias muito próximas, com minutos/horas de um bairro para outro.

A diferença de hoje para tempos remotos é que a miséria alheia e distante está quase a olhos nus, podemos ver o que acontece noutros lugares no tocar dos dedos quase que em tempo real.

As transformações para um novo viver ou para destruir as misérias humanas estão na atenção que não temos ao que realmente importa: a fome.

A fome e miséria demoravam meses para chegar ao conhecimento, hoje podemos saber em segundos. O que nos distancia deste discurso de que nada podemos fazer. Podemos fazer algo se acaso nos dispor ou atentar na desorganização do mundo de fantasias que nos impõe as redes sociais.

Assim como qualquer pessoa não gosto de compartilhar fotos de gente sangrando ou numa situação vexatória, mas as denuncias urgentes não aceitam o crivo para foco da câmera com a noção do ideal a circular nas redes.

As pessoas se incomodam com fotos marcantes ou denuncias de crimes de guerra, sejam por meio de armas ou ausência de comida. Tanto que a rede retira conteúdos considerados agressivos ou noutras palavras o que seriam provas de crimes de guerras.

No mundo em que mercadorias valem mais que pessoas ou pessoas servem de mercadoria o ideal é de que fotos de terremotos no Haiti, atentados contra a Somália e desumanização na Líbia não circulem, mas se porventura ocorrer em outros países com demais etnias/pessoas, ok.

O que aconteceria se a denuncia de pessoas sendo vendidas e escravizadas na Líbia fossem divulgadas pela unanimidade ou quase todos que tem acesso as redes sociais?

Qual a reação de presidenciáveis e grupo seleto de ricos e canais de comunicação para protestos liberté african  e Marche pour l´abolition de l´esclavage em diversos países sobre o repudio da miséria da qual vivemos?

O “não posso/podemos fazer nada” não nos cabe, quando temos a chance de pelo menos dar atenção a fome de refugiados, a desumanização e mercantilização de pessoas.

Dizem que na política não existe vácuo, assim creio que na vida virtual também não.

Embora queira me deixar guiar pela suavidade e leveza das redes para que não seja embrutecida no dia a dia e perdure com esperanças de transformação desse mundo, opto sempre pelo filtro de três níveis: classe, raça e gênero que não respeita ordem nas palavras pois estão arraigados e com nível de sensatez primordial para continuar a caminhar.




quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Ordem do dia

ECONOMIA: O PIB. O homem se preocupava com a queda do PIB! O PIB, santo Deus, o PIB! Era a segunda vez seguida que o país entrava em recessão desde que aquele partido intervencionista assumira o governo. O que faria ele diante daquela notícia? Teriam que apertar os cintos, diminuir as contas, dispensar a empregada, talvez. Não, a empregada não. Ainda não se encurvaria ao ponto de ter que lavar a própria louça. A própria louça, meu Deus! Lavar a própria louça... não, não fazia isso desde que... desde que nada, nunca fizera isso! Suas mãos delicadas tinham alergia a esses detergentes cheios de química. Mas se fizesse, ah se fizesse, faria com muito mais presteza do que a empregada fazia. Ah, se faria! Aquela moça, escolhida pela esposa mas paga com o dinheiro dele, só lhe servia para quebrar copos! Não, não a dispensaria, mas ia ter uma conversinha bem séria com ela, com aquela estabanada. 

- Paiê, cheguei!

COTIDIANO: Os copos. O homem se preocupava com a queda dos copos! Os copos, santo Deus, os copos! Era a segunda vez no mês que encontrara cacos no lixo desde que aquela empregada esquerdista assumira o serviço. E ainda escondia os cacos! Não fosse ele ter dado uma ajeitada no lixo para poder esconder a embalagem de Camel da esposa, jamais ele teria visto os cacos.  E era daqueles copos finos, que usava só quando tinham visitas. Os de requeijão, velhos de guerra, aqueles que usavam todo dia, a desastrada não quebrava nunca. Falaria com ela. Não, não a dispensaria, mas que descontaria de seu salário por cada copo perdido, ah, isso descontaria! 

- Ô, pai, joga lá fora comigo? 

ESPORTES: O time. O homem se preocupava com a queda do time! O time, santo Deus, o time! Era a segunda vez seguida que o time caía de divisão desde que aquele patrocinador governamentista estampara sua marca na camisa do clube. O que ele faria diante daquilo? Teria que evitar certos amigos durante algumas semanas, mudar de time, talvez. Não, mudar de time, não. Ainda não se rebaixaria ao ponto de ter que mudar de time. Mudar de time, meu Deus! Mudar de time nunca! Se muda de sexo, mas não se muda de time. Deviam era descontar, por cada ponto perdido, do salário do treinador. Mas até era bom, pensando melhor, que o time não estivesse mais jogando tão bem. Isso faria com que o filho perdesse um pouco de interesse nos esportes e passasse a se interessar mais pela escola. Quem sabe assim apresentasse boletins mais satisfatórios, sobretudo em química. O menino detestava química! Sua cabeça desmiolada tinha alergia a essas provas cheias de química. 

- Pa-ai! Larga esse jornal e vem jogar, vai! Parece que nem me ouve!

EDUCAÇÃO: As notas do filho. O homem se preocupava com a queda das notas do filho. As notas, santo Deus, as notas! Era a segunda vez seguida que as notas do filho caíam desde que ele se mudara para aquela escola chavista escolhida pela mãe, mas paga com o dinheiro dele. Daqui a pouco vai estar que nem a empregada, quebrando copos e falando bem de governos que derrubam o PIB. E aquela família tinha um nome a honrar, um dia ele morreria e não poderia ter um desmiolado para assumir os negócios que era de seu avô, um entusiasta da indústria química. Não poderia deixar tanta dinheirama nas mãos de um irresponsável bolivariano. Falaria com ele. Não, não o agrediria, mas que descontaria de sua mesada por cada décimo perdido, ah, isso descontaria!

- Pô, pai... só tem nós dois em casa, não tem mais ninguém pra eu chamar! Tira esse pijama e joga comigo, poxa!

CIÊNCIA: O pinto. O homem se preocupava com a queda no tamanho do pinto. O pinto, santo Deus, o pinto! Era a segunda vez que reparara que o pinto diminuíra desde que aquele governo castrista anunciou os cortes. Os cortes nos investimentos em ciência e tecnologia. O que ele faria diante daquilo? Teria que evitar mictórios coletivos e passar a usar cuecas com enchimentos, talvez. Não, cuecas com enchimentos, não. Ainda não se baixaria ao ponto de ter que usar cuecas com enchimentos. Enchimentos, meu Deus! Deixava-se de investir no progresso, no crescimento do que realmente importava, para se garantir a sobrevivência de pessoas que quebravam copos, que votavam em partidos que faziam o PIB cair e que não se preocupavam com o futuro da ciência, a única que poderia garantir detergentes melhores e pintos maiores. Com a ciência tão pra baixo, o homem não sabia que tanta importância aqueles professores soviéticos davam para as provas de química. Deviam mesmo era se preocupar em ensinar a moral e os bons costumes.

- ...

COMPORTAMENTO: A moral e os bons costumes. O homem se preocupava com a queda da moral e dos bons costumes. A moral, santo Deus, e os bons costumes também! Era a segunda vez naquela semana que via o filho do jeito que se encontrava agora, jogado no chão da sala, com aquele aparelho nas mãos, alheio ao mundo, parecendo que ninguém mais existia! Eram só aqueles jogos eletrônicos! Tantas questões importantes com que ele poderia estar se preocupando e ele só tinha cabeça pra esses jogos eletrônicos! Seu pai ali diante dele e aquele aluado o ignorando. O próprio pai, meu Deus! Esses jovens de hoje em dia são mesmos uns zumbis. Sempre tão distraídos. O que ele faria diante daquilo? Não poderia fazer nada. Nada, meu Deus, nada. O rapaz era um ensimesmado, um desmiolado que dava as mesmas respostas pra tudo, um pensamento que andava em círculos e nunca saia do lugar! Nem parecia seu filho...